Porto Canal, 4.3.2013, Último Jornal
Jornalista Carla Ascensão: Luis Miguel Novais como é que interpreta as mudanças de discurso por parte do Governo ? Por exemplo, o primeiro-ministro sempre disse que não queria nem mais tempo nem mais dinheiro, agora parece que está mais flexivel mas, na verdade, parece que não há aqui uma mudança de rumo...
Luis Miguel Novais: Tem havido uma mudança de discurso, mas ainda não houve uma mudança de política. Tenho muita pena de ver, por exemplo, o nosso ministro das finanças quase de mala na mão, a pedir (na reunião dos ministros das finanças europeus). Este é um país soberano, com quase mil anos de existência, nós não deveríamos estar nesta situação. Nós deveríamos estar a ser governados pelo Governo de Portugal, em benefício dos portugueses e não em benefício de uma quimera, que não nos interessa para nada, que é a austeridade. A austeridade é uma forma de nos mantermos dentro de um grupo em que somos olhados, de alguma forma, como o último da fila. Eu não quero que Portugal seja o último da fila de lado nenhum. Nós devemos ter uma política. Somos um país soberano, devemos ser governados por pessoas que estão a governar para os portugueses.
Carla Ascensão: Analisemos agora a manifestação (de 2.3.2013). Luis Miguel Novais que lição deve o Governo retirar deste protesto? Cerca de um milhão e meio de pessoas na rua, descontentes...
Luis Miguel Novais: Eu tinha dez anos de idade no 25 de Abril de 1974 e, portanto, vivi uma revolução. Não queria que tornássemos a viver outra. Eu penso que era previsível que, com estas medidas de austeridade, este tipo de manifestações iria acontecer. Penso que o Governo o tinha previsto. Mas não devemos acreditar que os portugueses vão aguentar sempre. E quando introduzo esta questão da revolução é porque ainda há muita gente que tem memória da rua como revolução. O que nos obriga a cuidado para a evitar. Repare, a questão da austeridade tem um objectivo, um motivo: que é a nossa permanência no euro (União Monetária). E a nossa permanência no euro já passou a ser um objectivo praticamente secundário: quando nós vemos as pessoas na rua, as pessoas com fome, que os Bancos praticamente faliram, e que foi necessária a ajuda do Estado para que sobrevivessem e o sistema financeiro se mantivesse, eu penso que já não há condições para continuar a achar que é melhor austeridade e mantermo-nos no euro, do que sairmos do euro e mantermo-nos na União Europeia. Eu penso que devemos sair do euro e mantermo-nos na União Europeia. Este é que é o caminho em que devemos começar a pensar neste momento. Eu não fui à manifestação porque não concordo com o mote "que se lixe a troika"; eu acho que devemos pagar as nossas dívidas e que devemos ser gratos com quem nos ajudou na altura em que necessitámos de ajuda. Mas devemos ser soberanos e independentes... Teria ido se o mote fosse "que se lixe o euro".
Carla Ascensão: Mas não lhe pareceu que esta era uma manifestação não apenas contra as políticas de austeridade e contra a troika, mas também um descrédito em relação a toda a classe política?
Luis Miguel Novais: Penso que sim. Penso que o caminho que o Sr. Presidente da República tem que seguir é o de ponderar seriamente a convocação de um Conselho de Estado, onde se consiga obter um consenso nacional, supra-partidário, e que consiga tirar-nos desta situação. Eu, como digo, defendo que a melhor solução é sairmos do euro e mantermo-nos na União Europeia, que é, por exemplo, o caso da Suécia.
Luis Miguel Novais
