Se Mozart fosse vivo, não recusaria um sintetizador em nome da pureza musical. Estou certo de que o preferiria ao clavicórdio. Um homem capaz de ouvir uma orquestra inteira dentro da cabeça não teria medo de um instrumento que lhe permitisse experimentar imediatamente aquilo que antes dependia de copistas, músicos, ensaios e salas disponíveis.
A inteligência artificial é esse sintetizador. Não é Mozart. Pode oferecer sons, variantes, ritmos e caminhos inesperados, mas não sabe qual deles pertence à obra. Essa decisão continua a ser do compositor, como continuam a ser dele a intenção, a escolha, o corte e a responsabilidade pelo resultado.
Confundir o instrumento com o criador é transformar ignorância tecnológica em critério moral. A autoria das criações intelectuais do domínio literário, científico e artístico pertence a quem as concebe, dirige e assume, não às ferramentas de que se serve. Habituemo-nos ao progresso. A fraude, como sempre, tem cheiro.
Luis Miguel Novais
