Num momento em que o agora famoso Estreito de Ormuz espanta o mundo pelas suas consequências, cabe recordar que este Portugal adormecido, entre outras tantas coisas espantosas, também já dominou Ormuz (hoje também se escreve Hormuz).
Depois da chegada de Vasco da Gama à Índia, em 1498, os portugueses voltaram ao Índico e perceberam depressa que não bastava chegar a Calecute para controlar as especiarias: era preciso segurar as portas do comércio. Uma delas era Ormuz. Em Setembro de 1507, Afonso de Albuquerque tomou a ilha e começou a levantar uma fortaleza. Não ficou. A resistência local e a rebelião dos próprios capitães obrigaram-no a sair em 1508. Voltou em 1515, já governador da Índia, e então assentou: com o Forte de Nossa Senhora da Conceição, na garganta do Golfo Pérsico, a vigiar navios e mercadorias, e... colhendo tributos. João de Barros registou a frase certa: "o mundo é um anel, e Ormuz uma pedra preciosa engastada nele“. Foi nossa durante mais de um século, até 1622, quando os persas, ajudados pelos ingleses, enquanto eramos espanhóis, a arrancaram do anel.
Nunca lá estive. Hoje a fortaleza ainda existe, na ilha iraniana de Hormuz: dizem que ruína de pedra vermelha, com restos de fosso, cisterna, igreja, prisão, quartel e sala de comando. Um monumento português no sítio onde o mundo continua a prender a respiração. Tenho vontade de visitar. Quando acabar esta guerra em volta da pedra de Ormuz.
Luis Miguel Novais