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Riqueza, civilização e prosperidade nacional

sexta-feira, 24 de abril de 2026

O meu 24 de Abril de 1974

No dia que antecede uma revolução, a larga maioria das pessoas não faz a mínima ideia do que virá no dia seguinte. Assim sucedeu no meu 24 de Abril de 1974. Tinha eu onze anos de idade e vivia no Porto deste Portugal adormecido. Os meus falecidos pais, oriundos de famílias afluentes, tratavam-me bem. E já havia, ainda havia, bom ensino público, que eu nesse dia frequentei, na Escola Augusto Gil. Já tinha frequentado com proveito a escola primária pública na Avenida dos Combatentes, também no Porto.

O ensino básico e secundário era então tratado com seriedade pelo Estado. Pelos mapas espalhados pelas paredes, víamos um grande Portugal pluricontinental e multiétnico. Éramos parte de um pedaço europeu de um grande país global. Assim nos ensinavam e, convenhamos, ainda era verdade. As diferenças sociais existiam, mas esbatiam-se na escola pública: os meus amigos provenientes de famílias afluentes nunca me impediram de conviver com toda a gente, até com melhores amigos de uma certa altura, como o filho do merceeiro goês, ou o filho do alemão refugiado que andava em calções curtos mesmo de Inverno.

Aqueles que hoje temos sessenta ou mais anos beneficiámos então de um bom ensino público primário e secundário. Com defeitos, naturalmente, em especial a separação entre feminino e masculino, ou as reguadas e outras vexações, que hoje felizmente parecem impossíveis. Mas também com grandes virtudes, que seria injusto omitir.

Luis Miguel Novais

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