A propósito da polémica em torno da nomeação para os Prémios Sophia do filme Cartas Telepáticas, de Edgar Pêra, marcado pelo uso de inteligência artificial no processo criativo, até no meu chat com a minha assistente digital (ChatGPT 5.4) a primeira reação falhou o essencial. Falou-me de ruído cultural e costumes portugueses. Tudo acessório. O ponto verdadeiramente essencial é o outro, que até ela perdeu.
Se um realizador usa IA para gerar texto, imagem, voz ou montagem, a pergunta séria é esta: mudou a ferramenta ou mudou o autor? Uma câmara digital não aboliu o cinema, o processador de texto não aboliu a literatura, o sintetizador não aboliu a música. A técnica altera meios, acelera processos e abre linguagens; não elimina a vontade criadora que escolhe, corrige, rejeita e assina. Nem o contrário resulta “voz humana”.
Comecei a minha vida a escrever em esferográfica (em si mesma um grande avanço tecnológico em relação à pena), depois passei para máquina de escrever (primeiro manual, depois eletrónica), depois para computador (processador de texto), e agora uso um programa de inteligência artificial. Alguma vez deixei de ser eu o autor?
Luis Miguel Novais
