É a capa do FT Weekend (Europe edition) de hoje: um mercado em Teerão, flores nas mãos, mulheres elegantes descobertas, um quotidiano urbano que poderia ser Lisboa ou Milão. O facto é esse. A impressão é outra: não coincide com o quadro mental de guerra e teocracia. A legenda é credível, a autoria identificada. A cena é plausível. E, ainda assim, a imagem contraria o senso comum.
Regime que impõe, prática que contorna, é possível. Guerra em curso, rotina à superfície, é admissível. Lei rígida, aplicação inobservada, é comum. A imagem pode ser verdadeira e, ao mesmo tempo, incompleta. Em guerra, não é preciso mentir: basta escolher.
Talvez por isso a capa impressione: porque expõe a nossa própria necessidade de simplificação. A guerra, hoje como sempre, joga-se também aqui — na escolha do que se mostra. E o mais eficaz dos véus não é o que esconde, mas o que deixa ver.
Luis Miguel Novais
