Uma caminhada no bosque, parte do Caminho de Santiago de Compostela por Portugal, recuperado na Idade Média a partir da Via Romana de Bracara Augusta a Asturica Augusta, felizmente mantido até hoje, levou-me a Jean-Jacques Rousseau (1712-1778).
Todos conhecemos Rousseau a partir da sua ideia duradoura de Contrato Social, que nos trouxe ao Constitucionalismo dos nossos dias, na parte ocidental deste globo - ainda e sempre cicatrizado por divisões este-oeste, norte-sul e quejandas.
Desconhecia que Rousseau partilhava da filosofoterapia do peregrino - soube-o há pouco tempo, lendo "Marcher, une philosophie" (2009), o muito recomendável livro de Frédéric Gros - que eu saiba, ainda não traduzido para português, mas que tem uma boa edição em espanhol: "Andar, una filosofia"(Taurus, 2015).
Discordo de Rousseau em muita coisa. Da sua época, prefiro o cosmopolitanismo de Diderot (1713-1784). Mas a refrescadela que originou a nossa caminhada virtual conjunta, levou-me à minha enciclopédia favorita sobre o pensamento político: On Politics, de Alan Ryan, cujo tomo segundo vem de Hobbes ao presente (a edição que possuo é a primeira, em língua inglesa, de 2012).
Aí descubro esta pérola pré-pandémica de actualidade evidente, pela pena elegante de Alan Ryan (Tomo segundo, pg.551, com tradução minha): "A imagem de Rousseau do ser humano, como vítima das forças sociais, nem sempre é útil. Pode levar ao pensamento de que somos barro nas mãos de políticos. Um pensamento que alimenta os objectivos utópicos de ditadores e populistas. Preversamente, também pode levar às brandas tiranias da sociedade terapêutica: o mundo em que somos todos considerados incapazes de conduzir as nossas próprias vidas sem a assistência de um exército de trabalhadores sociais e terapeutas".
Luis Miguel Novais
