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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Anjo de Portugal

Descobri hoje, pelo Seringador — almanaque ainda publicado, no seu 161.º ano, curioso antecessor do Borda d’Água — que 10 de Junho é também o dia do Santo Anjo da Guarda de Portugal. Não descobri hoje que Portugal tem um Anjo. Esse já eu conhecia e sobre ele escrevi em A Janela do Cardeal. A surpresa foi encontrá-lo ali, no Seringador, discreto, quase invisível, entre luas, marés, santos, provérbios e feiras. Talvez seja esse o lugar próprio de um anjo: estar presente sem se impor.

A tradição é antiga. A festa do Anjo Custódio do Reino foi oficializada no início do século XVI, a pedido de D. Manuel I, quando este Portugal adormecido ainda se pensava com grandeza bastante para se apresentar em Roma como reino providencial. Em 1952, Pio XII aprovou a inclusão da memória do Anjo de Portugal no Calendário Litúrgico português, fixada em 10 de Junho. Ficaram assim reunidos Camões, Portugal e o Anjo: a Pátria cantada, a Pátria política e a Pátria invisível.

A escolha não era neutra. Em 1952, o 10 de Junho era, no Estado Novo, o Dia de Camões, de Portugal e da Raça. Depois de 1974, a data foi reconstruída pelo regime democrático como Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Mudaram o vocabulário, a intenção política e a liturgia civil. Mas a camada invisível ficou. Há, no mundo, 193 Estados reconhecidos pelas Nações Unidas. Portugal é, tanto quanto sei, o único que tem, desde o início do século XVI, um Anjo da Guarda próprio. Não se vê, não se celebra publicamente, mas está no meio de nós.

Luis Miguel Novais

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