Riqueza, civilização e prosperidade nacional

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Espelho Negro

As séries audiovisuais (em tv e na web) acabam por ser o sucedâneo contemporâneo dos livros de contos e novelas (mantendo a analogia, os filmes são o equivalente dos romances). Nada de novo debaixo do sol, portanto. Excepto, talvez, a constatação de que o audiovisual se está a sobrepor ao livro, volvidos pouco mais de quinhentos anos sobre Gutenberg. E são coisas muito diferentes - a meu ver, complementares.

Alguns contos contemporâneos sobre a invasão tecnológica à privacidade e ao humano vêm sendo publicados, desde 2011, pela Netflix, sob o título em língua inglesa “Black Mirror” - o tal Espelho Negro do título, websérie que me foi aconselhada pela minha querida filha Beatriz. Ontem, estreou a quinta temporada, da qual destaco o episódio “Smithereens” (título que, segundo a tradição da língua portuguesa apreciadora dos mistérios das línguas alheias, não vem traduzido - mas que eu traduzo por Fagulhas). Não vou ser um desmancha-prazeres (também conhecido por “spoiler”), limito-me a partilhar o tema do conto: a avassaladora influência nas nossas vidas de companhias tecnológicas que, digo eu, há uma década atrás praticamente nem sabíamos que existiam. Falo da Apple, da Amazon, e da Alphabet (dona da Google). Segundo a edição de 18 de maio deste ano da revista The Economist, aquelas corporações faturaram no ano de 2018, respectivamente: mais de 250 mil milhões de dólares, mais de 200 mil milhões de dólares, e quase 150 mil milhões de dólares. Para pôr em medida, recordo que este Portugal Adormecido “fatura” por ano (Produto Interno Bruto, vulgo PIB)... cerca de 200 mil milhões... Àquela lista de corporações tecnológicas de receitas multimilionárias podem-se acrescentar clássicos como a Microsoft e a Huawei, ou ainda, claro, o Facebook do Smithereens - ainda com uns “meros” cerca de 50 mil milhões, “and counting”...

Mais do que as Fagulhas do conto da Netflix, importa ver quão negro se apresenta um espelho em que corporações do tamanho de Portugal influem nas nossas vidas, sem lei nem grei. E não vamos impedi-lo? Já desistimos do Direito?

Luis Miguel Novais