Riqueza, civilização e prosperidade nacional

sábado, 18 de agosto de 2018

Do pano e da nódoa

No melhor pano cai a nódoa é, hoje, uma expressão corrente na língua portuguesa. Mas não a encontro no Bluteau, nem no Rolland, do século 18. Embora Francisco Rodrigues Lobo, nesse mesmo século, afirme, mais genericamente, que "não há pano sem nódoa". Aquela expressão apenas me aparece literariamente no século 19, pelo dicionário de Morais e a proverbial sagacidade popular de Camilo Castelo Branco (em Maria não me mates que sou tua mãe), numa formulação mais aproximada: "em bom pano cai uma nódoa".

Da mesma longevidade subjacente vêm os tecidos e as asneiras. Assim como algumas, poucas, instituições. É o caso da Igreja Católica que, apesar de algumas nódoas (como as recentemente vindas à luz a propósito de alguns seus membros alegadamente infiéis à sua profissão), se mantém solidamente entretecida após 2018 anos de longevidade. Fiel à lição sintetizada por São Tomás de Aquino: só há uma maneira de lidar com o mal, exterminá-lo. Não já (felizmente) com pena de morte, mas com penas. Sempre com penas aos responsáveis (enculpados, defendidos e sentenciados após devido processo). Duras penas, quando proporcionadas. De expulsão, se necessário fôr. Como se faz com o tira-nódoas.

Parafraseando a verdade intemporal transmitida por outro escritor da língua portuguesa, Duarte Nunes de Leão, do século 17: a nódoa não é da natureza do pano. Por isso sai, no bom.

Luis Miguel Novais