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Riqueza, civilização e prosperidade nacional

terça-feira, 26 de junho de 2018

Falando Comigo Mesmo

Pela minha primeira década de vida, Portugal foi ferido por uma revolução. Pela mesma altura em que, no meu exame da quarta classe, declinara os rios e linhas de caminho-de-ferro em África, na Ásia e na Europa, que rasgavam o Portugal pluricontinental de então, menino sensível, recordo vagamente a minha primeira afloração poética: estava no jardim-de-inverno de casa da minha avó Marizete e surpreendi-me a mim próprio com um poema sobre, nem mais, Portugal. Um Portugal que o meu eu menino notava ferido. Era esse, provavelmente, o título que então dei ao poema, que não conservei, sobre o Portugal saído da Revolução de 1974.

Volvida uma turbulenta década, em que Portugal mingou e porfiou europeu, a raiz da composição poética permanecia. Exprimia-a, então já com a sofisticação dos vinte anos de idade, integrado no movimento da música moderna portuguesa, que nos uniu de Norte a Sul, passando pelos muitos que nasceram em Portugal fora da Europa e aqui "retornaram". Desta minha década ficou-me, por exemplo, o poema intitulado Falando Comigo Mesmo, que então escrevi e cantava nos Prece Oposto, e rezava assim:

Falando comigo mesmo,
Flores lavadas pela chuva,
Iluminadas pelo céu,
Choram?

Falando comigo mesmo,
O tempo é que está mal,
A culpa que cheira a rosas,
Choras?

Pelas décadas seguintes, de adesão de Portugal às Comunidades e União europeias, e redescoberta do mundo, os meus voos e devaneios foram outros, de outra índole menos poética - mas, nem por isso, menos belos ou horríveis, por momentos. Até que a viragem do milénio, a passagem ao século XXI da Encarnação, me voltou a golpear a veia e nasceu, em 1999, o Virados Para a Lua, ensaio colorido a texto e imagens sobre o progresso/regresso da humanidade, que ficou na gaveta até 2007, e hoje se encontra em qualquer boa biblioteca.

Não acordei nostálgico, hoje, nem me volvi autobiográfico. É que, faz hoje precisamente dez anos, nasceu o Portugal Adormecido, a 26 de junho de 2008. Uma década. A primeira década de um blogue (forma literária ininteligível para quaquer Tito Lívio ou João de Barros de outras décadas). Um menino de veia poética. Que vê um Portugal ainda ferido. Ainda. Já curado da falta de liberdade, mas que ainda varia entre o riso e a chora. Ainda belo e adormecido.

Uma década de vida vivida. Mais de quatrocentos, quase quinhentos textos, de crónicas, ensaios, cartas abertas e desabafos sobre o nosso Portugal. Alguns com utilidade (para um mundo prosaico). Alguns outros não (simplesmente). Foi esta a primeira década do nosso Portugal Adormecido. Obrigado pela companhia.

Luis Miguel Novais

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