Riqueza, civilização e prosperidade nacional

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Dinheiro e pecado

Quando a minha alma mater, a Universidade Católica Portuguesa, me convidou para ensinar, não foi para a Faculdade de Direito, onde me formei nos idos de 1986, foi para a Faculdade de Gestão, a Católica Porto Business School. Para partilhar com alunos de Gestão para Juristas as minhas experiências de Direito e Gestão no campo das Transações Internacionais. Dada a minha trajetória profissional, em paralelas assimétricas (e não me refiro à ginástica, é mesmo à advocacia e finanças internacionais, coisa rara de conjugar na altura), não fiquei surpreendido - apenas agradado, como é natural, sem quebra de humildade. Já lá vão uns bons cinco anos, mas este é especial. Sinto que é de despedida. A minha posição profissional de vanguarda vai tornar-se popular; logo, por definição de vanguarda (que deixa de o ser quando se torna popular), é a hora de render o testemunho.

Com efeito, a 6 de janeiro de 2018, a Igreja Católica aprovou um muito importante documento sobre a relação entre os católicos e o dinheiro: "Oeconomicae et pecuniarae quaestiones". É um documento doutrinal que ainda mal começou a fazer estrada, já que foi publicado apenas há uns dias, a 17 de maio de 2018. Ainda não é generalizadamente conhecido, mas estou em crer que o vai ser muito. Na minha modesta opinião, vai mudar o mundo. E não apenas o mundo católico, na medida em que o dinheiro deixa de ser um assunto de judeus e protestantes. O dinheiro deixará de ser percepcionado pelos católicos como inútil, ou até pecado: posta a descoberto a sua dimensão ética, a economia e as finanças estão no meio de nós; para ficar, sem egoísmos. O que é novo.

O segredo esteve sempre no Testamento, velho e novo: "Ó homem, já te foi explicado o que é bom e o que Javé exige de ti: praticar a justiça, amar a misericórdia, caminhar humildemente com o teu Deus" (Miqueias: 6); "Tudo o que desejais que os outros vos façam, fazei-o também a eles" (Mateus: 7). O momento será, por isso, apenas de reencontro. A vanguarda torna-se popular, deixa de ser vanguarda. Felizmente.

Luis Miguel Novais