Na versão luzinhas e rodinhas dos desenhos animados da minha infância, os bots eram-me mais simpáticos. Atualmente, desde que perderam as rodas e pretendem ter inteligência artificial (vá lá, a de um ser humano de um mês de idade), não lhes consigo encontrar graça, nem de fungagá. Sobretudo, porque esbarro constantemente com a invasão à minha prezada privacidade – que os seres humanos, realmente inteligentes, respeitam.
Em Lisboa, por hoje, celebra-se a feira mundial dos bots. Com grande sucesso para este Portugal adormecido, com que me regozijo e celebro sem copo na mão (por ainda não haver virtual, claro). Um jornalista do Politico reporta que mal chegou ao aeroporto sugeriram-lhe que se registasse via app da Web Summit, porque é fácil e excepcional, mas implica (em contrapartida do fácil e cool?) que a organização aceda a todos os contactos e fotografias do seu telefone – coisa que está longe de ser única nesta era da pilhagem de dados pessoais por, nem sempre, se sabe bem quem.
Em Madrid, segundo reporta o El Pais em letras pequenas (ocupado que está com outros assuntos, apesar de tudo, não maiores), a autoridade de protecção de dados pessoais acaba de multar a Google porque, entre 2008 e 2010, os carros que andavam a fotografar as ruas também se dedicavam a saquear os dados das redes wifi (sim, as nossas passwords, os nossos contactos, os nossos emails, tudo, como na pesca de arrastão). A Google reconheceu. Diz que foi engano. Paga uma multa de 300 mil euros. Quanto? E terá sido só em Espanha?
Não sei se anda algum bot nos copos em Lisboa. Mas desejo a alguém ilustrado na Web Summit que assuma o sentido das duas únicas palavrinhas que deverão aprender no seu caminho para a inteligência: conhecimento e consentimento. Antes de se apropriarem dos meus dados devem dar-me conhecimento e, bem assim, pedir-me consentimento. Sem o que: cheiras mal, bot.
Luis Miguel Novais
Total:
Riqueza, civilização e prosperidade nacional
