Riqueza, civilização e prosperidade nacional

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O dominó catalão

Estava em Madrid no dia 11 de setembro de 2013, dia do impressionante cordão humano de muitos milhares de pessoas que se formou na Catalunha, ao longo de centenas de quilómetros (fala-se na enormidade de 400 km), pela realização de um referendo sobre a independência. Na capital de Espanha ouvi e senti indiferença.

É uma indiferença perigosa, esta das capitais. Transponível para a nossa, Lisboa. A grande maioria da população de capitais como Lisboa ou Madrid não nasceu aí, escolheu viver aí. Olha, por isso, com indiferença, quase desdém, para aqueles que optaram (ou não conseguiram) emigrar para a capital. Em Madrid diz-se que só se vence nas ventas (aludindo à praça de touros). Em Lisboa, é conhecido o que se diz sobre o resto de Portugal: é paisagem.

O 11 de setembro de 2013 pode muito bem ter sido o princípio do fim desta indiferença perigosa para as próprias capitais, assim como para a unicidade dos Estados europeus tal como os conhecemos. É, pelo menos, a primeira enorme manifestação de rua sobre o caminho que leva esta Europa, se não muda de rumo: o futuro desmembramento de países com fortes identidades parciais; a consequente evolução (?) para a Europa das Cidades-Estado, ao fim e ao cabo cada vez mais centrifugadas por Berlim ou, no melhor dos sonhos, por Bruxelas - em ambos os casos, o mínimo denominador comum para a paz e o progresso num quadro de concorrência interna feroz mas leal, e políticas de bloco exterior comum.

Numa Europa de Cidades-Estado, Lisboa ou Madrid não fazem qualquer sentido, enquanto capitais, para Barcelona ou para o Porto. Qualquer uma destas últimas (de par com Milão, por exemplo) preferirá ser o seu próprio Luxemburgo. E competir, cooperar, concorrer entre si, Cidades-Estado independentes politicamente, mais ou menos interdependentes, com um referente comum, de bloco, a capital da União Europeia de Cidades-Estado, seja ela Bruxelas ou Berlim - que já é hoje isso mesmo, em relação aos Estados alemães, federados…

Por este caminho que leva a Europa, um erro estratégico de Lisboa (povo e dirigentes, residentes e conversos), similar ao cometido em Madrid no dia 11 de setembro de 2013, pode vir a fazer converter o Norte de Portugal num Portugal do Norte, autónomo ou independente. E adeus Portugal uno.

Não escrevi este texto hoje, nem ontem. Não o escrevi perante os resultados das eleições de ontem em Portugal, ou do referendo simulado e erroneamente reprimido na Catalunha, também de ontem. Este meu texto foi publicado no jornal Diário de Notícias de 16 de setembro de 2013 (o texto integral está aqui: Portugal do Norte). Pareceu-me oportuno recordá-lo no dia de hoje.

Luis Miguel Novais